segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Pic Nic no Terceiro Andar

“Du bist der rausch
Und ich will noch mehr alkohol.
Du bist die welt
Wo schatten licht gefangen hält”[1]- Ich Lebe
Christina Sturmmer[2]
                                                              
“SENHORAS E SENHORES PRESENTES NO PERFEKTE WELLE[3], PRONTOS PARA MAIS UMA NOITE DE JUDÔ? ´PRÓXIMA LUTA EM 5 MINUTOS: Chiristina Kliessen da Alemanha contra Kayo Minazuki do Japão!!”- Era o que dizia, o apresentador da noite empolgado pela presença da plateia dessa noite fria de sábado, o Perfekte Welle era um bar localizado na Berlim Oriental, próximo ao antigo muro que separava as duas cidades, durante a Guerra Fria, seu dono, Thiago, um amante da filosofia clausewitziana e da guerra, fundou o Perfekte Welle, em meados dos anos 90, após a conclusão de seu doutorado, no Brasil, amante das noites que Berlim, proporcionava nessa época, sendo em suas palavras: “A Cidade dos Anjos”.
O Perfekte Welle, tem três andares, o primeiro piso designa-se no formato de um bar comum, onde são servidas as melhores cervejas da Alemanha todas custando em média 40 a 100 euros, o segundo piso, serve como uma discoteca comum onde pode se usufruir uma área vip, custando uns 200 euros para entrar e por fim, no último andar temos, o Clube da Luta, com a premissa de trazer várias modalidades esportivas de contato: Boxe, Taekwondo, Jiu-Jitsu, MMA, Luta Grego-Romana, Karate, Muay Thai, entre outros. Cada dia da semana era uma arte marcial diferente, e para competir, o atleta teria que ter como pré-requisito um título nacional, segundo o próprio dono: “A Guerra é a política por outros meios.”
Christina Kliesen, 25 anos, dona de 8 títulos nacionais, 2 títulos europeus, 1 campeonato mundial na categoria até 66kg, foi banida do esporte por comportamento inadequado, segundo a Federação Alemã de Judô, alega que a atleta mantinha um relacionamento com uma colega de equipe, algo inadmissível para os dirigentes do esporte no país, depois do título mundial, foi convidada por Thiago, a lutar em seu estabelecimento, ganhando 2000 euros por luta, independente do seu resultado, com a promessa de que um dia voltaria a ser a referência do judô alemão. Seu caminho ao tatame estava rodeado por gritos do hino nacional alemão: “DEUSTCHLAND UBER ALLES!!”. Christina odiava esse hino, pois remetia o passado sombrio da Alemanha: o Nazismo. Em uma de suas entrevistas, no centro de treinamento da seleção alemã de Judô, em sua preparação para o Mundial de 2013, no Rio, um repórter perguntou se ela tinha alguma simpatia pelo Nazismo, ligado ao fato que a mesma era treinava, nas instalações do Schalke 04[4], em Gerlscherkirchen. Ela apenas jogou o microfone na cara do repórter e saiu pelos fundos, mas o fato repercutiu no Bild[5] e em todo o país.
Ela e seus lindos cabelos loiros amarados e seu quimono branco, esperavam a sua oponente a ser anunciada, seu rosto branco e pálido demonstravam ansiedade imensa diante de um público ligeiramente alcoolizado, parecia que toda a Berlim estava ali, como se fossem uma onda numa maré cheia.
APRESENTADOR: VESTIDA DE QUIMONO AZUL, PESANDO 66KG, 4 VEZES CAMPEÃ NACIONAL JAPONESA, 2 VEZES CAMPEÃ ASIÁTICA E CAMPEÃ MUNDIAL INDIVIDUAL E POR EQUIPES, KAYO MINAZUKI!!!
O olhar das duas eram penetrantes, o público agitado de antes, começou a fazer a silêncio, o momento da batalha entre duas ideologias de um passado trágico dos dois países, de um lado, Kliessen, uma alemã que nasceu nos anos 1990, após a queda do Muro de Berlim, vivendo numa Alemanha unificada, porém, não superando o fantasma do Nazismo, perpetuando-se nos dias atuais. Do outro lado, temos uma japonesa que seguiu a risca a filosofia do samurai, criada desde pequena para ser uma guerreira, carregando consigo valores como: A honra, a ética e a perseverança.
Por serem mulheres e referências do esporte, em seus respectivos países, essa luta seria a representação do Ocidente contra o Oriente, o duelo em que representava a supremacia de um dos lados. A casa de apostas estava em 50-50, não havendo possiblidade de empate, ambas tinham 5 minutos para fazer um ippon e provar a si mesmas, o seu lugar no mundo do judô, as duas suavam frio, quando foram fazer o cumprimento perante o arbitro e assim a luta começara:
ARBITRO: Hajime!!
Começaram os 5 minutos, que mudariam a vida de todos os presentes no local, Kliessen, começou a pegar o quimono de Minazuki, e começou com as técnicas de quadril, instruídas pelo seu treinador, um ex-oficial da Kommando Spezialkräfte[6], e do exército da Alemanha Oriental, gritava e suava em uma velocidade impressionante. Um minuto de luta, e nenhuma delas pontuou, apenas Kliessen cometeu uma falta por sair da área de combate, dando uma vantagem simbólica a sua oponente, que a todo custo derrubar sua oponente com um Uchi-Mata.
Thiago, nesse momento atrás do balcão servindo as bebidas, observando tudo, a movimentação das judocas, o árbitro e o seu público, nunca havia faturado tanto, em 10 anos de existência do Perfekte Welle, Clausewitz iria levantar dos mortos para assistir essa luta, ver sua filosofia sendo aplicada na vida real, afinal foi á toa que sua obra Da Guerra, foi escrita. 3 minutos e 30 minutos para o final do combate, e as duas enroscavam-se os quimonos uma na outra, as 700 pessoas do estabelecimento gritavam: KLIENSSEN!! KLIENSSEN!!! Quando o arbitro interrompe a luta: YUKO PARA MINAZUKI aos 3:10 de combate!!! O público alemão iria do delírio emocional ao som do grilo. Uma japonesa fez um yuko numa alemã, em seu próprio território. A filosofia da “superioridade” alemã havia acabado apenas em um instante.
“Clausewitz, está rindo disso!”- Disse Thiago, após transbordar uma cerveja num jarro, de um dos clientes.
“PODEM RECOMEÇAR!!”- Disse o árbitro
Dois minutos e vinte segundos de luta, e Kliessen estava bufando de raiva para derrubar sua oponente, ela havia conseguido uma falta de vantagem por falso ataque da japonesa, porém, não era o suficiente, nesse tempo todo ela se perguntava, se iria ser reintegrada a equipe de judô, se veria sua companheira novamente, eram tantos se em sua mente, que o tempo corria contra ela, desesperada pela vitória a todo custo. O placar eletrônico do estabelecimento começava a decrescer cada vez mais e mais....
VAMOS KLIESSEN, UM MINUTO E QUARENTA SEGUNDOS!!”- Dizia o treinador, suando frio, e com a cara toda avermelhada. Kliessen, em seu último momento de angústia, aplicou mais uma falta em Minazuki, dando assim, um yuko ao um minuto e 10 segundos de luta, levando o local ao êxtase, Thiago apenas observava atento, o que iria acontecer e seu olhar, por um instante, desviou-se ao técnico de Kliessen.
As duas conseguiram superar as expectativas do público, a luta não havia acabado faltava ainda quarenta segundos de luta, e as duas estavam no auge do cansaço físico, seus quimonos pareciam poças de suor ambulantes, o árbitro central e seus auxiliares estavam atentos ao que iria acontecer, em dez segundos tudo poderia mudar. Kliessen tentou soltar um seoi-nage, mas sem eficácia, enquanto Minazuki defendia. O árbitro declarou a luta encerrada, e dando ínicio para o Golden Score, não se sabia o que iria acontecer, quando de repente, Thaigo faz um anúncio: “DOIS MINUTOS DE DESCANSO PARA PODERMOS RETOMAR A LUTA ENTRE KLIESSEN E MINAZUKI. O PERFEKTE WELLE AGRADECE A PRESENÇA DE TODOS OS PRESENTES, TEREMOS UM GOLDEN SCORE EMOCIONANTE SENHORAS E SENHORES!”
 Após o anuncio de Thiago, as duas judocas foram em direção a seus respectivos técnicos, enquanto, o dono do estabelecimento dirigia-se para a área de Kliessen, quando foi abordado pelo treinador da mesma:
- “Muito prazer, Sr. Thiago. Me chamo Clausewitz, seu bar é muito bem frequentado, quero tomar uma cerveja com o senhor.”
- “Obrigado, Sr. Clausewitz, foi o senhor mesmo que escreveu o livro Da Guerra?”
- “Sim, eu mesmo, fico feliz que tenha gostado, agora tenho que tomar conta da minha atleta.”
-“Desejo, uma boa luta ao senhor e para a Kliessen, tenho uns contatos na Federação Alemã de Judô que podem ajudá-la”- Disse Thiago indo em direção ao balcão, confuso com toda a situação.
A luta recomeçou com a plateia do Perfekte Welle, indo ao extremo de sua loucura, parecia uma versão alemã do Fight Club, mas apenas uma iria sair vencedora desse confronto, entre as duas antigas potências nacionalistas do passado...





[1]  Tradução: ”Você é a embriaguez
E eu quero ainda mais álcool
Você é o mundo
Que aprisiona luz da sombra”
[2] Cantora pop austríaca, nascida em Linz, em 1982, sendo considerada uma das cantoras austríacas de grande repercussão mundial. 
[3] Tradução “A Onda Perfeita”, em homenagem a banda alemã “Juli”
[4] Clube alemão fundado em 4 de Maio de 1904, na cidade de Gelseerkirchen, no Vale do Ruhr, sua época de glória está atrelada ao período Nazista, em que o clube conquistou todos seus títulos nacionais, recebendo até mesmo apoio do próprio Hitler. 
[5] Jornal popular da Alemanha
[6] Força de Elite Alemã, equivalente a SWAT dos EUA

domingo, 20 de novembro de 2016

O Sonho de Uma Garota

O SONHO DE UMA GAROTA
“Não seja tão cruel
Não busque mais pretextos
Não seja tão cruel
Sempre seremos, sempre seremos prófugos”
Prófugos- Soda Stereo[1]
           
 “Diga que eu uso sua consciência para enche-la com os meus demônios”, dizia uma garota de 18 anos de idade ás 18:30 da noite, habitante do bairro da Torre[2], e residente do apartamento 1201 de uma das centenas de espigões de concreto que rasgam o céu da cidade do Recife. Seus cabelos castanhos lisos balançavam de acordo com a direção do vento, seu quarto era o seu castelo, ela acabou de entrar na faculdade de Design da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), apelidada por suas amigas de “ A versão pernambucana de Maxine Caufield[3]”, seus olhos castanhos claros olhavam fixamente para a tela do computador, quando de repente, um enorme clarão acontece no céu da cidade do Recife, todas as luzes dos bairros da Zona Norte foram apagadas de maneira inexplicável dando o presságio de que algo maior estava por vir.
Em seu quarto, uma vela foi acesa, o medo estava estampado em sua face, gotas de suor frias estavam escorrendo sobre seu rosto, seu rosto apresentava uma coloração branca pálida, pegou o seu celular rapidamente e começou a ler as mensagens de suas amigas na tela:
- ACABOU A ENERGIA NO BAIRRO DOS AFLITOS!!
- O QUE ESTÁ ACONTECENDO?!?!!
- O NOSSO PRÉDIO COMEÇOU A BALANÇAR!! SOCORRO!!
Ao olhar para a rua da sua janela, a garota começou a sentir uma ventania muito forte nas ruas de seu bairro, com o medo crescendo sobre seu rosto, a menina ligou o rádio procurando repostas para o que estava acontecendo, a única notícia que era transmitida era que o II Batalhão de Infantaria do Nordeste e a II COMAR estavam em prontidão, algumas quadras próximas de sua casa para a perícia do local, a cidade de 1 milhão e meio de habitantes estava estática, as luzes dos postes de iluminação apagaram-se num estalar de dedos, á medida que os militares se aproximavam com cautela do epicentro do incidente, a névoa roxa começava a diminuir cada vez mais, até que um grito agudo começou a ser escutado a 100 metros de distância das instalações militares ali presentes, o medo estava estampado no rosto dos soldados, quando de repente, uma de suas garras perfurou um dos soldados, matando-o, os gritos de fogo foram acionados e começou a batalha entre os homens fardados contra a criatura.
O CONTIGENTE DO EXÉRCITO DO II BATALHÃO DO NORDESTE FOI ABATIDO, PEDIMOS PARA OS RESIDENTES DA ZONA NORTE DO RECIFE E DAS CIDADES DA REGIÃO METROPOLITANA, PARA QUE NÃO SAIAM DE SUAS CASAS!!”- Era o que dizia na rádio enquanto a menina começava a procurar um local para se esconder na sua casa, o seu soluço misturado com o choro era  uma sensação de que o mundo iria acabar, ela se sentia uma ameba perante o que estava acontecendo, o semblante de seu olhar mudou completamente, suas pupilas começaram a se dilatar e seu corpo cada vez mais pesado, á medida que a criatura se aproximava do seu prédio, vestiu seu casaco e começou a se encolher num canto, pensando qual será seu próximo passo, pensando qual será o próximo menino que ela irá beijar na boca e levar para a sua cama, sua zona de conforto, seu santuário. A menina, em seu, último ato de vida, pegou sua lapiseira 0,5 mm e numa folha de papel A4 começou a escrever um bilhete sabendo que a derrota era iminente e a criatura se aproximava a cada passo, por mais que nenhuma força humana podia detê-la, esse foi o seu último ato de coragem:
 “O demônio que eu criei, foi tudo aquilo que eu vivi, como todo o garoto que eu levei para a minha cama decidiu me enxergar, eu era apenas uma garota que achava que estava no paraíso, e acreditava que em seus braços a chuva iria passar, a minha vida inteira se resumiu a isso, desde dos meus 16 anos, era uma menina depressiva, que queria sorrir novamente, que essas lembranças não fossem perdidas, que numa tempestade queria voar, é isso que eu sou, não sou um anjo como dizem, eu queria poder mandar no mundo e não ficar sozinha, isso é um fim, é tudo o que eu tenho a dizer...”
Ao término da escrita de sua carta, a garota deixou o bilhete na mesa, virou-se para a janela vendo a criatura encará-la, com seu olhar penetrante e perturbador, a garota em suas últimas palavras disse em voz alta:
- REINE SOBRE MIM!!!!!!!










[1] Banda de Rock Argentino formada em Buenos Aires, em 1982, composta por Gustavo Cerati (1959-2014), Héctor “Zeta” Bosio (1958-) e Charly Alberti (1962-)
[2] Bairro da Zona Norte do Recife
[3] Protagonista do jogo Life is Strange, desenvolvido pelo estúdio francês Dontnod Entertaiment e publicado pela Square Enix, lançado em 29 de Janeiro de 2015

sábado, 19 de novembro de 2016

Um Milhão e Meio de Santos

“Vivemos sozinhos, morremos sozinhos, o resto é tudo ilusão. ”
- A Arte da Conquista

UM MILHÃO E MEIO DE SANTOS
 “ SENHOR, RODOLFO GREEN! O SENHOR ESTÁ PRESTANDO ATENÇÃO NA MINHA AULA?!!!”- Minha professora de Literatura do terceiro ano do Ensino Médio fechou o livro e começou a andar na minha direção e me indicando o caminho para o lado de fora de sala, não pensava em mais nada, nem na reação da minha professora e dos meus quarenta e oito colegas, que para mim não significavam nada, eram apenas robozinhos programados para estudar para o ENEM e para o vestibular da UFPE e da UPE, com a finalidade de serem estatística de fim de ano para o colégio. Esse era o meu pensamento até o caminho da sala da coordenadora. Na minha mente, não pensava em mais nada, somente na próxima ligação que a senhora de cabelos loiros e olhos azuis irá fazer para os meus pais. Sentei na cadeira e a conversa se iniciou:
- “Rodolfo Green, Terceiro Ano, Turma E, 5 expulsões de sala de aula por comportamento inadequado, notas baixas nas provas, apenas um 10 em História, onde você quer chegar com esse perfil? ”- Disse a coordenadora, em um tom calmo.
- “Não sei, um dia eu vou morrer mesmo, para que me importar com isso? ”
- “Você já pensou no seu futuro? ”- Disse ela em um tom mais sério.
-“ Que futuro? Sentar minha bunda numa cadeira de escritório, todos dias, enfrentar o congestionamento da Av. Conselheiro Aguiar[1] ás 6:30 da noite, ganhar um salário que mal dá para pagar um aluguel de um apartamento de dois quartos em Boa Viagem, a senhora chama isso de “FUTURO”?
- “Todos nós precisamos sobreviver, Rodolfo. A vida não é fácil, espero que com 18 anos você possa entender que o sol não nasce para todos. ”- Dizia a coordenadora, enquanto escrevia um memorando para entregar aos meus pais depois da aula.
Eu saí da sala da coordenadora com muita raiva parecia que eu ia explodir, que nem uma bomba atômica, subi as escadas e cheguei na varanda da escola, peguei uma caixa de Marlboro vermelho e enquanto isso de longe avistava uma garota de cabelos loiros e olhos castanhos com um cigarro na boca olhando para mim, tirei o isqueiro do bolso da minha calça e comecei a acender quando de repente ela veio em minha direção, observando de perto minha situação:
-“Dia ruim, não? Bem-vindo ao clube”- Disse ela em tom de deboche.
-“ Nem me fale, acabei de vir da sala da coordenadora. Parecia um sermão da montanha ou algo do tipo. As pessoas não me entendem, ou sou algum ser de outro planeta, mas só tenho 18 anos de idade e parece que me cobram responsabilidades de um cara de 30”.
-“ E você o que acha que eu sou? ”
- “ Sei lá, uma princesa, uma atleta, um caso perdido, um cérebro ou uma criminosa? ”-
- “ Talvez, eu seja tudo isso. Vai entender...”
-“ O que você quer cursar na faculdade? ”
- “ Medicina, como todo mundo, estou tentando pela terceira vez o vestibular da UPE, acho que dessa vez eu passo. E você? ”
-“ Quero fazer Direito, no momento, acho um curso interessante... Paga bem, tem maiores possibilidades de ascensão social na sociedade pernambucana...”
-“ Nossa, como você é direto, primeira vez, que eu ouço isso na vida.... ”
- “E você, por que quer ser médica? ”
-“ Bom, Sr. Murdock, quero atuar na área de saúde, porque eu tenho 1 milhão e meio de santos para cuidar...”
- “ Ótima escolha...”
- “Vivemos em mundo lindo, não acha?”
-“Depende do seu ponto de vista...”
-“Ok, você está dizendo. Qual é o seu nome? ”
-“Me chamo, Rodolfo, um estudante do terceiro ano do ensino médio que acaba de sair da sala da coordenadora e o seu? ”
“-Vanessa. Um nome com três sílabas, comum para uma garota de 18 anos criada no interior pernambucano. ”
Nesse momento, ventava forte na varanda da escola, todos os prédios da Av. Padre Carapuceiro faziam sombra para nós dois, era como se naquele instante, tudo ficasse estático, apenas o que se podia ouvir era o som das buzinas do trânsito da Zona Sul do Recife, o som dos portões dos prédios abrindo e fechando, como se aquele espaço fosse um palco, e os apartamentos a nossa plateia esperando pelo grand finale.
“-Bom, Sr. Advogado, o que espera da vida depois daqui? ”
“- Não sei, penso em voltar para minha sala de aula. ”
“-Nossa, que pessimista, eu penso em fazer algumas questões do simulado e depois ser livre o dia inteiro. ”
Eu podia sentir o vento arrastando os seus cabelos, vendo aquele olhar castanho penetrante em direção a mim, uma das melhores cenas que eu vi em toda a minha vida, parecia um anjo que desceu na terra, como podia algo tão belo se aproximar de mim, um demônio em pessoa, apenas o calor típico de 30° graus era o nosso obstáculo.
“-Eu tenho que ir agora, afinal, aquelas questões de Biologia não vão se resolver sozinhas.”
“- É eu também, vou nessa, afinal tenho que voltar para a minha sala.”
“- A gente se vê, por aí, Sr. Advogado.”
Eu acenei para ela, não conseguia me mexer parecia que o meu corpo estava todo paralisado, sentia dificuldade para descer as escadas e ir em direção a minha sala que se localizava no segundo andar. Eu não entendia o que aconteceu naquele momento, estava confuso apenas ouvindo os ruídos dos meus colegas no corredor e na sala de aula. Ao abrir a porta da minha sala, apenas uma voz na minha cabeça dizia:
“- BEM VINDO DE VOLTA, RODOLFO!”




[1]Principal avenida da Zona do Sul do Recife