O
SONHO DE UMA GAROTA
“Não
seja tão cruel
Não
busque mais pretextos
Não
seja tão cruel
Sempre
seremos, sempre seremos prófugos”
Prófugos-
Soda Stereo[1]
“Diga que eu uso sua consciência para enche-la
com os meus demônios”, dizia uma garota de 18 anos de idade ás
18:30 da noite, habitante do bairro da Torre[2], e residente do
apartamento 1201 de uma das centenas de espigões de concreto que rasgam o céu
da cidade do Recife. Seus cabelos castanhos lisos balançavam de acordo com a
direção do vento, seu quarto era o seu castelo, ela acabou de entrar na
faculdade de Design da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), apelidada por
suas amigas de “ A versão pernambucana de Maxine Caufield[3]”, seus olhos castanhos
claros olhavam fixamente para a tela do computador, quando de repente, um
enorme clarão acontece no céu da cidade do Recife, todas as luzes dos bairros
da Zona Norte foram apagadas de maneira inexplicável dando o presságio de que
algo maior estava por vir.
Em
seu quarto, uma vela foi acesa, o medo estava estampado em sua face, gotas de
suor frias estavam escorrendo sobre seu rosto, seu rosto apresentava uma
coloração branca pálida, pegou o seu celular rapidamente e começou a ler as
mensagens de suas amigas na tela:
- ACABOU A ENERGIA NO
BAIRRO DOS AFLITOS!!
- O QUE ESTÁ
ACONTECENDO?!?!!
- O NOSSO PRÉDIO COMEÇOU
A BALANÇAR!! SOCORRO!!
Ao
olhar para a rua da sua janela, a garota começou a sentir uma ventania muito
forte nas ruas de seu bairro, com o medo crescendo sobre seu rosto, a menina
ligou o rádio procurando repostas para o que estava acontecendo, a única
notícia que era transmitida era que o II Batalhão de Infantaria do Nordeste e a
II COMAR estavam em prontidão, algumas quadras próximas de sua casa para a
perícia do local, a cidade de 1 milhão e meio de habitantes estava estática, as
luzes dos postes de iluminação apagaram-se num estalar de dedos, á medida que
os militares se aproximavam com cautela do epicentro do incidente, a névoa roxa
começava a diminuir cada vez mais, até que um grito agudo começou a ser
escutado a 100 metros de distância das instalações militares ali presentes, o
medo estava estampado no rosto dos soldados, quando de repente, uma de suas
garras perfurou um dos soldados, matando-o, os gritos de fogo foram acionados e
começou a batalha entre os homens fardados contra a criatura.
“O CONTIGENTE DO EXÉRCITO DO II BATALHÃO DO
NORDESTE FOI ABATIDO, PEDIMOS PARA OS RESIDENTES DA ZONA NORTE DO RECIFE E DAS
CIDADES DA REGIÃO METROPOLITANA, PARA QUE NÃO SAIAM DE SUAS CASAS!!”- Era o
que dizia na rádio enquanto a menina começava a procurar um local para se
esconder na sua casa, o seu soluço misturado com o choro era uma sensação de que o mundo iria acabar, ela
se sentia uma ameba perante o que estava acontecendo, o semblante de seu olhar
mudou completamente, suas pupilas começaram a se dilatar e seu corpo cada vez
mais pesado, á medida que a criatura se aproximava do seu prédio, vestiu seu
casaco e começou a se encolher num canto, pensando qual será seu próximo passo,
pensando qual será o próximo menino que ela irá beijar na boca e levar para a
sua cama, sua zona de conforto, seu santuário. A menina, em seu, último ato de
vida, pegou sua lapiseira 0,5 mm e numa folha de papel A4 começou a escrever um
bilhete sabendo que a derrota era iminente e a criatura se aproximava a cada
passo, por mais que nenhuma força humana podia detê-la, esse foi o seu último
ato de coragem:
“O demônio que eu criei, foi tudo aquilo que
eu vivi, como todo o garoto que eu levei para a minha cama decidiu me enxergar,
eu era apenas uma garota que achava que estava no paraíso, e acreditava que em
seus braços a chuva iria passar, a minha vida inteira se resumiu a isso, desde
dos meus 16 anos, era uma menina depressiva, que queria sorrir novamente, que
essas lembranças não fossem perdidas, que numa tempestade queria voar, é isso
que eu sou, não sou um anjo como dizem, eu queria poder mandar no mundo e não
ficar sozinha, isso é um fim, é tudo o que eu tenho a dizer...”
Ao
término da escrita de sua carta, a garota deixou o bilhete na mesa, virou-se
para a janela vendo a criatura encará-la, com seu olhar penetrante e
perturbador, a garota em suas últimas palavras disse em voz alta:
-
REINE SOBRE MIM!!!!!!!
[1]
Banda de Rock Argentino
formada em Buenos Aires, em 1982, composta por Gustavo Cerati (1959-2014),
Héctor “Zeta” Bosio (1958-) e Charly Alberti (1962-)
[2] Bairro da Zona Norte do Recife
[3] Protagonista do jogo Life is Strange, desenvolvido pelo
estúdio francês Dontnod Entertaiment e
publicado pela Square Enix, lançado em 29 de Janeiro de 2015
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