sábado, 19 de novembro de 2016

Um Milhão e Meio de Santos

“Vivemos sozinhos, morremos sozinhos, o resto é tudo ilusão. ”
- A Arte da Conquista

UM MILHÃO E MEIO DE SANTOS
 “ SENHOR, RODOLFO GREEN! O SENHOR ESTÁ PRESTANDO ATENÇÃO NA MINHA AULA?!!!”- Minha professora de Literatura do terceiro ano do Ensino Médio fechou o livro e começou a andar na minha direção e me indicando o caminho para o lado de fora de sala, não pensava em mais nada, nem na reação da minha professora e dos meus quarenta e oito colegas, que para mim não significavam nada, eram apenas robozinhos programados para estudar para o ENEM e para o vestibular da UFPE e da UPE, com a finalidade de serem estatística de fim de ano para o colégio. Esse era o meu pensamento até o caminho da sala da coordenadora. Na minha mente, não pensava em mais nada, somente na próxima ligação que a senhora de cabelos loiros e olhos azuis irá fazer para os meus pais. Sentei na cadeira e a conversa se iniciou:
- “Rodolfo Green, Terceiro Ano, Turma E, 5 expulsões de sala de aula por comportamento inadequado, notas baixas nas provas, apenas um 10 em História, onde você quer chegar com esse perfil? ”- Disse a coordenadora, em um tom calmo.
- “Não sei, um dia eu vou morrer mesmo, para que me importar com isso? ”
- “Você já pensou no seu futuro? ”- Disse ela em um tom mais sério.
-“ Que futuro? Sentar minha bunda numa cadeira de escritório, todos dias, enfrentar o congestionamento da Av. Conselheiro Aguiar[1] ás 6:30 da noite, ganhar um salário que mal dá para pagar um aluguel de um apartamento de dois quartos em Boa Viagem, a senhora chama isso de “FUTURO”?
- “Todos nós precisamos sobreviver, Rodolfo. A vida não é fácil, espero que com 18 anos você possa entender que o sol não nasce para todos. ”- Dizia a coordenadora, enquanto escrevia um memorando para entregar aos meus pais depois da aula.
Eu saí da sala da coordenadora com muita raiva parecia que eu ia explodir, que nem uma bomba atômica, subi as escadas e cheguei na varanda da escola, peguei uma caixa de Marlboro vermelho e enquanto isso de longe avistava uma garota de cabelos loiros e olhos castanhos com um cigarro na boca olhando para mim, tirei o isqueiro do bolso da minha calça e comecei a acender quando de repente ela veio em minha direção, observando de perto minha situação:
-“Dia ruim, não? Bem-vindo ao clube”- Disse ela em tom de deboche.
-“ Nem me fale, acabei de vir da sala da coordenadora. Parecia um sermão da montanha ou algo do tipo. As pessoas não me entendem, ou sou algum ser de outro planeta, mas só tenho 18 anos de idade e parece que me cobram responsabilidades de um cara de 30”.
-“ E você o que acha que eu sou? ”
- “ Sei lá, uma princesa, uma atleta, um caso perdido, um cérebro ou uma criminosa? ”-
- “ Talvez, eu seja tudo isso. Vai entender...”
-“ O que você quer cursar na faculdade? ”
- “ Medicina, como todo mundo, estou tentando pela terceira vez o vestibular da UPE, acho que dessa vez eu passo. E você? ”
-“ Quero fazer Direito, no momento, acho um curso interessante... Paga bem, tem maiores possibilidades de ascensão social na sociedade pernambucana...”
-“ Nossa, como você é direto, primeira vez, que eu ouço isso na vida.... ”
- “E você, por que quer ser médica? ”
-“ Bom, Sr. Murdock, quero atuar na área de saúde, porque eu tenho 1 milhão e meio de santos para cuidar...”
- “ Ótima escolha...”
- “Vivemos em mundo lindo, não acha?”
-“Depende do seu ponto de vista...”
-“Ok, você está dizendo. Qual é o seu nome? ”
-“Me chamo, Rodolfo, um estudante do terceiro ano do ensino médio que acaba de sair da sala da coordenadora e o seu? ”
“-Vanessa. Um nome com três sílabas, comum para uma garota de 18 anos criada no interior pernambucano. ”
Nesse momento, ventava forte na varanda da escola, todos os prédios da Av. Padre Carapuceiro faziam sombra para nós dois, era como se naquele instante, tudo ficasse estático, apenas o que se podia ouvir era o som das buzinas do trânsito da Zona Sul do Recife, o som dos portões dos prédios abrindo e fechando, como se aquele espaço fosse um palco, e os apartamentos a nossa plateia esperando pelo grand finale.
“-Bom, Sr. Advogado, o que espera da vida depois daqui? ”
“- Não sei, penso em voltar para minha sala de aula. ”
“-Nossa, que pessimista, eu penso em fazer algumas questões do simulado e depois ser livre o dia inteiro. ”
Eu podia sentir o vento arrastando os seus cabelos, vendo aquele olhar castanho penetrante em direção a mim, uma das melhores cenas que eu vi em toda a minha vida, parecia um anjo que desceu na terra, como podia algo tão belo se aproximar de mim, um demônio em pessoa, apenas o calor típico de 30° graus era o nosso obstáculo.
“-Eu tenho que ir agora, afinal, aquelas questões de Biologia não vão se resolver sozinhas.”
“- É eu também, vou nessa, afinal tenho que voltar para a minha sala.”
“- A gente se vê, por aí, Sr. Advogado.”
Eu acenei para ela, não conseguia me mexer parecia que o meu corpo estava todo paralisado, sentia dificuldade para descer as escadas e ir em direção a minha sala que se localizava no segundo andar. Eu não entendia o que aconteceu naquele momento, estava confuso apenas ouvindo os ruídos dos meus colegas no corredor e na sala de aula. Ao abrir a porta da minha sala, apenas uma voz na minha cabeça dizia:
“- BEM VINDO DE VOLTA, RODOLFO!”




[1]Principal avenida da Zona do Sul do Recife  

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